Pressões
"Multidão e gritos, palavras de ordem em frente ao portão"*. Ninguém se perguntava, todos queriam entrar, mesmo sem saber o que os esperava.
Wagner, lá dentro, procurava concentração. Seus pensamentos se perdiam. Quando conseguia voltar ao trabalho, era outra confusão, outro barulho, outro infeliz que sofria os rigores da força armada.
Quando tinha tempo para pensar por seus próprios princípios, achava absurda aquela situação. Preocupavam-se com medos bobos, enquanto havia verdadeiros dragões assassinos atacando por todos os lados.
A guerra de Wagner era travada por dentro, eram os dragões lutando para sair. E ele, que por fora aparentava ser dócil e frágil, era uma verdadeira fortaleza, indestrutível. Uma prisão inviolável. Uma gaiola anti-inflamável contra dragões cuspidores de fogo.
Seus dragões interiores se matavam em busca de fuga e destruíam tudo. Mas seu corpo não deixava transparecer nada. Quem olhava aquele rapaz atrás da máquina de escrever, suas pilhas de papéis, levando um susto cada vez que o capitão gritava uma nova ordem, não imaginava o que Wagner tinha por dentro.
Mas tudo é imprevisível. Um dragão muito grande, esperto, forte e cruel ainda há de encontrar um escape.
*Trecho com autoria de W. Rodrigo Felipe
sexta-feira, 15 de abril de 2011
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
A Mais Bonita
Não, solidão, hoje não quero me retocar
Nesse salão de tristeza onde as outras penteiam mágoas
Deixo que as águas invadam meu rosto
Gosto de me ver chorar
Finjo que estão me vendo
Eu preciso me mostrar
Bonita
Pra que os olhos do meu bem
Não olhem mais ninguém
Quando eu me revelar
Da forma mais bonita
Pra saber como levar todos
Os desejos que ele tem
Ao me ver passar
Bonita
Hoje eu arrasei
Na casa de espelhos
Espalho os meus rostos
E finjo que finjo que finjo
Que não sei
Chico Buarque
Interpretada por Chico e Bebel Gilberto... linda, linda... uma música maravilhosa!!!
Nesse salão de tristeza onde as outras penteiam mágoas
Deixo que as águas invadam meu rosto
Gosto de me ver chorar
Finjo que estão me vendo
Eu preciso me mostrar
Bonita
Pra que os olhos do meu bem
Não olhem mais ninguém
Quando eu me revelar
Da forma mais bonita
Pra saber como levar todos
Os desejos que ele tem
Ao me ver passar
Bonita
Hoje eu arrasei
Na casa de espelhos
Espalho os meus rostos
E finjo que finjo que finjo
Que não sei
Chico Buarque
Interpretada por Chico e Bebel Gilberto... linda, linda... uma música maravilhosa!!!
domingo, 25 de outubro de 2009
Segredo
A poesia é incomunicável.
Fique torto no seu canto.
Não ame.
Ouço dizer que há tiroteio
ao alcance do nosso corpo.
É a revolução? o amor?
Não diga nada.
Tudo é possível, só eu impossível.
O mar transborda de peixes.
Há homens que andam no mar
como se andassem na rua.
Não conte.
Suponha que um anjo de fogo
varresse a face da terra
e os homens sacrificados
pedissem perdão.
Não peça.
Carlos Drummond de Andrade
A simplicidade de Drummond... sem comentários...
Fique torto no seu canto.
Não ame.
Ouço dizer que há tiroteio
ao alcance do nosso corpo.
É a revolução? o amor?
Não diga nada.
Tudo é possível, só eu impossível.
O mar transborda de peixes.
Há homens que andam no mar
como se andassem na rua.
Não conte.
Suponha que um anjo de fogo
varresse a face da terra
e os homens sacrificados
pedissem perdão.
Não peça.
Carlos Drummond de Andrade
A simplicidade de Drummond... sem comentários...
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Os Jornais
Meu amigo lança fora, alegremente, o jornal que está lendo e diz:
- Chega! Houve um desastre de trem na França, um acidente de mina na Inglaterra, um surto de peste na Índia. Você acredita nisso que os jornais dizem? Será o mundo assim, uma bola confusa, onde acontecem unicamente desastres e desgraças? Não! Os jornais é que falsificam a imagem do mundo. Veja por exemplo aqui: em um subúrbio, um sapateiro matou a mulher que o traía. Eu não afirmo que isso seja mentira. Mas acontece que o jornal escolhe os fatos que noticia. O jornal quer fatos que sejam notícias, que tenham conteúdo jornalístico. Vejamos a história desse crime. “Durante os três primeiros anos o casal viveu imensamente feliz...” você sabia disso? O jornal nunca publica uma nota assim:
“Anteontem, cerca de vinte e uma horas, na Rua Arlinda, no Méier, o sapateiro Augusto Ramos, de vinte e oito anos, casado com a Senhora Deolinda Brito Ramos, de vinte e três anos de idade, aproveitou-se de um momento em que sua consorte erguia os braços para segurar uma lâmpada para abraçá-la alegremente, dando-lhe beijos na garganta e na face, culminando em um beijo na orelha esquerda. Em vista disso, a senhora em questão voltou-se para o seu marido, beijando-o longamente na boca e murmurando as seguintes palavra: ‘Meu amor’, ao que ele retorquiu: ‘Deolinda’. Na manhã seguinte, Augusto Ramos foi visto saindo de sua residência às sete e quarenta e cinco da manhã, isto é, dez minutos mais tarde do que o habitual, pois se demorou, a pedido de sua esposa, para consertar a gaiola de um canário-da-terra de propriedade do casal”.
A impressão que a gente tem, lendo os jornais – continuou meu amigo – é que “lar” é um local destinado principalmente à prática de “uxoricídio”. E dos bares, nem se fala. Imagine isto:
“Ontem, cerca de dez horas da noite, o indivíduo Ananias Fonseca, de vinte e oito anos, pedreiro, residente à Rua Chiquinha, sem número, no Encantado, entrou no bar ‘Flor Mineira’, à Rua Cruzeiro, 524, em companhia de seu colega Pedro Amâncio de Araújo, residente no mesmo endereço. Ambos entregaram-se a fartas libações alcoólicas e já se dispunham a deixar o botequim quando apareceu Joca de Tal, de residência ignorada, antigo conhecido dos dois pedreiros, e que também estava visivelmente alcoolizado. Dirigindo aos dois amigos, Joca manifestou desejo de se sentar à sua mesa, no que foi atendido. Passou então a pedir rodadas de conhaque, sendo servido pelo empregado do botequim, Joaquim Nunes. Depois de várias rodadas, Joca declarou que pagaria toda a despesa. Ananias e Pedro protestaram, alegando que eles já estavam na mesa antes. Joca, entretanto, insistiu, seguindo-se uma disputa entre os três homens, que terminou com a intervenção do referido empregado, que aceitou a nota que Joca lhe estendia. No momento em que trouxe o troco, o garçom recebeu uma boa gorjeta, pelo que ficou contentíssimo, o mesmo aconteceu aos três amigos que se retiraram do bar alegremente, cantarolando sambas. Reina a maior paz no subúrbio do Encantado, e a noite foi bastante fresca, tendo Dona Maria, sogra do comerciário Alberto Ferreira, residente à Rua Benedito, 14, senhora que sempre foi muito friorenta, chegando a puxar o cobertor, tendo depois sonhado que seu netinho lhe oferecia um pedaço de goiabada”.
E meu amigo:
- Se um repórter redigir essas duas notas e levá-las a um secretário de redação, será chamado de louco. Porque os jornais noticiam tudo, tudo, menos uma coisa tão banal de que ninguém se lembra: a vida...
Maio, 1951
Rubem Braga
Fantástica esta crônica do Braga... ninguém liga para as coisas simples da vida... para a banalidade da vida... reclamamos das desgraças, mas no fundo é sobre isso que queremos saber...
- Chega! Houve um desastre de trem na França, um acidente de mina na Inglaterra, um surto de peste na Índia. Você acredita nisso que os jornais dizem? Será o mundo assim, uma bola confusa, onde acontecem unicamente desastres e desgraças? Não! Os jornais é que falsificam a imagem do mundo. Veja por exemplo aqui: em um subúrbio, um sapateiro matou a mulher que o traía. Eu não afirmo que isso seja mentira. Mas acontece que o jornal escolhe os fatos que noticia. O jornal quer fatos que sejam notícias, que tenham conteúdo jornalístico. Vejamos a história desse crime. “Durante os três primeiros anos o casal viveu imensamente feliz...” você sabia disso? O jornal nunca publica uma nota assim:
“Anteontem, cerca de vinte e uma horas, na Rua Arlinda, no Méier, o sapateiro Augusto Ramos, de vinte e oito anos, casado com a Senhora Deolinda Brito Ramos, de vinte e três anos de idade, aproveitou-se de um momento em que sua consorte erguia os braços para segurar uma lâmpada para abraçá-la alegremente, dando-lhe beijos na garganta e na face, culminando em um beijo na orelha esquerda. Em vista disso, a senhora em questão voltou-se para o seu marido, beijando-o longamente na boca e murmurando as seguintes palavra: ‘Meu amor’, ao que ele retorquiu: ‘Deolinda’. Na manhã seguinte, Augusto Ramos foi visto saindo de sua residência às sete e quarenta e cinco da manhã, isto é, dez minutos mais tarde do que o habitual, pois se demorou, a pedido de sua esposa, para consertar a gaiola de um canário-da-terra de propriedade do casal”.
A impressão que a gente tem, lendo os jornais – continuou meu amigo – é que “lar” é um local destinado principalmente à prática de “uxoricídio”. E dos bares, nem se fala. Imagine isto:
“Ontem, cerca de dez horas da noite, o indivíduo Ananias Fonseca, de vinte e oito anos, pedreiro, residente à Rua Chiquinha, sem número, no Encantado, entrou no bar ‘Flor Mineira’, à Rua Cruzeiro, 524, em companhia de seu colega Pedro Amâncio de Araújo, residente no mesmo endereço. Ambos entregaram-se a fartas libações alcoólicas e já se dispunham a deixar o botequim quando apareceu Joca de Tal, de residência ignorada, antigo conhecido dos dois pedreiros, e que também estava visivelmente alcoolizado. Dirigindo aos dois amigos, Joca manifestou desejo de se sentar à sua mesa, no que foi atendido. Passou então a pedir rodadas de conhaque, sendo servido pelo empregado do botequim, Joaquim Nunes. Depois de várias rodadas, Joca declarou que pagaria toda a despesa. Ananias e Pedro protestaram, alegando que eles já estavam na mesa antes. Joca, entretanto, insistiu, seguindo-se uma disputa entre os três homens, que terminou com a intervenção do referido empregado, que aceitou a nota que Joca lhe estendia. No momento em que trouxe o troco, o garçom recebeu uma boa gorjeta, pelo que ficou contentíssimo, o mesmo aconteceu aos três amigos que se retiraram do bar alegremente, cantarolando sambas. Reina a maior paz no subúrbio do Encantado, e a noite foi bastante fresca, tendo Dona Maria, sogra do comerciário Alberto Ferreira, residente à Rua Benedito, 14, senhora que sempre foi muito friorenta, chegando a puxar o cobertor, tendo depois sonhado que seu netinho lhe oferecia um pedaço de goiabada”.
E meu amigo:
- Se um repórter redigir essas duas notas e levá-las a um secretário de redação, será chamado de louco. Porque os jornais noticiam tudo, tudo, menos uma coisa tão banal de que ninguém se lembra: a vida...
Maio, 1951
Rubem Braga
Fantástica esta crônica do Braga... ninguém liga para as coisas simples da vida... para a banalidade da vida... reclamamos das desgraças, mas no fundo é sobre isso que queremos saber...
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